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TESTEMUNHO DE UMA ESTUDANTE

Chegam de toda a parte trazendo nos rostos pintados, a maioria deles, o leque mais variado de emoções: alegria, ansiedade, muita timidez e em alguns casos muitas lágrimas à mistura. Assim é todos os anos por este tempo, desde muito antes de eu própria ter percorrido pela primeira vez os caminhos da Universidade do Minho.
    Também eu me consumia em ansiedade, em expectativas e porque não admiti-lo, trazia o meu quinhão de insegurança. Hoje posso admiti-lo perante todos mas na altura não pude fazê-lo perante mim. Estava talvez na etapa da minha vida em que tinha que me mostrar mais forte e realmente sê-lo. A minha família esperava isso de mim, os meus amigos, e principalmente precisava dar-me essa prova.
    Naquele tempo eu era uma rapariga de dezoito anos, recém-chegada de Fafe, uma pequena cidade do distrito de Braga, com cegueira congénita e acabada de ingressar no curso de Psicologia na Universidade do Minho. Apesar da escassez de manuais escolares e dos parcos apoios que recebi tanto a nível de materiais tiflológicos como a nível de formação na área da mobilidade, informática, atividades da vida diária. Desde o primeiro ao décimo segundo ano de escolaridade, optei por estudar na minha cidade natal. Tinha onze anos quando fiz esta escolha. Foi-me facultada a experiência de permanecer uma semana numa instituição onde estavam internos vários cegos que efetuavam algumas atividades para além de irem à escola. Durante esse pouco tempo percebi que mesmo sendo a única cega a estudar em Fafe com tudo de complicado que isso acarretava consigo, pensei ser preferível enfrentar logo todas as dificuldades inerentes uma vez que um dia mais tarde haveria de passar por elas. Para além disso eu era uma criança que como qualquer outra tinha os seus amigos e família e era com eles que eu queria compartilhar os meus dias. Esta foi a minha escolha, foi a mais adequada para mim, mas cada um é diferente do outro, e nesta sociedade de rótulos e formatações há muito a tendência a pensar que nós, pessoas com uma determinada deficiência somos todos iguais e o que é bom para um tem de ser bom para todos. E cabe-nos, mostrar que esta visão não está correta.
    Como dizia, chegava então a Braga. Era o dia em que se distribuíam os horários e umas quantas outras coisas que agora não me lembro. Só me lembro que os meus pais me levaram lá para buscar o meu horário e de seguida, fomos para a residência universitária onde ficaria naquele ano letivo e nos anos subsequentes. Pode dizer-se que aí começou a verdadeira aventura! Estava eu sozinha numa residência cheia de gente onde eu não conhecia ninguém, numa zona de Braga que eu nem sequer sabia descrever, sabendo que no dia seguinte haveria de me deslocar à Universidade sem ter a mínima ideia de como fazê-lo para ter a minha primeira aula às nove da manhã.
    Se por um lado o cenário me dava muito que pensar, por outro não havia muito por onde decidir. E mais depressa do que pensava a manhã chegou e eu encontrava-me perto da porta de saída da residência apercebendo-me do movimento dos estudantes a sair, e a solução veio logo. Aproximei-me de um grupo de estudantes e perguntei se iam para a universidade ao que me responderam que sim e a partir daí só tive de pedir-lhes se não se importavam que lhes fizesse companhia até lá.
    Muitas pessoas com deficiência têm relutância em aceitar ajuda, muito menos vinda de estranhos, menos ainda pedi-la eles mesmos. Entendo que terão as suas razões, mas por minha vez penso que pessoas com deficiência ou não, todos precisamos da ajuda de todos e cada vez mais precisamos de ser educados para a pedir, para a aceitar e para a oferecer, em nosso benefício e em benefício de todos.
 E foi com a ajuda de uns aqui, outros além que me fui adaptando aos espaços, aos meios de transporte, sabendo onde ficavam as cantinas, adaptando-me aos poucos que comecei a construir o meu bocadinho de independência. Eu sei que algumas pessoas que estiverem a ler isto devem pensar que não é bem assim, que nem sempre é fácil, e de facto não deixam de ter razão na medida em que há pessoas que simplesmente nos ignoram e não ajudam ou o fazem de uma forma errada, raiando muitas vezes o inconveniente. Quanto àqueles que nos ignoram, provavelmente não somos exclusivos a receber a sua falta de civismo e de carácter. Quanto àqueles que se mostram inconvenientes, muitas vezes o fazem por ignorância de como fazer melhor, e se nos for humanamente possível, que admito, muitas vezes não é, todos lucramos em mostrar-lhes formas mais assertivas de nos abordar.
    Com o início das aulas, aquando do meu ingresso na Universidade, sendo que este já se passou há uma boa década, não havia o mesmo acesso a computadores portáteis e no meu caso, eu ainda só trabalhava com o sistema operativo MS-DOS. Na universidade esse sistema já havia em muito sido ultrapassado pelo sistema Windows e o trabalho começava a acumular-se. Os professores não sabiam Braille nem iriam com certeza aprender. Para além de que os materiais em suporte digital não iriam ser convertidos em resmas e resmas de papel e mesmo que fossem, num tempo muito breve esse sistema iria falir por completo. Eu não podia mandar parar o ritmo das aulas nem exigir um técnico de informática de prontidão ali para mim! Se não tinha existido na escolaridade obrigatória, aquela que todos temos de completar, porque haveria de aparecer na Universidade, uma opção minha?
    Fazer reclamações e protestar por um mundo melhor é legítimo, porém naquele como em muitos outros casos era insuficiente. Então resolvi expor o meu problema à coordenadora do outrora GAED, atual GPI, que tendo ela também uma deficiência visual me propôs dar-me dicas do Windows na ótica do utilizador, resolvendo assim as minhas barreiras mais imediatas.
    Porém havia muito material para ser digitalizado. E ao contrário de hoje em dia em que o GPI tem três funcionários a tempo inteiro, e portanto o material a digitalizar chega às mãos de quem dele precisa de forma mais rápida, este valia-se do serviço de alunos que não eram contratados pelo então GAED. Nisto resultava que muitos deles apresentavam várias limitações de conhecimentos como por exemplo de inglês e também acontecia que nem todos tinham uma noção muito clara sobre boas práticas em questões de profissionalismo. Então muitos dos materiais que precisavam de brevidade acabavam por ser lidos e gravados por amigos e familiares que não possuindo conhecimentos acerca das matérias de estudo, faziam o que lhes era possível.
Durante esse tempo de transição na vida académica em que entre os meus colegas de curso ainda não podia contar com amigos, no sentido mais lato que essa palavra contém, apesar de ir pedindo ajuda, e precisava realmente de ajuda para muitas coisas no meu dia-a-dia, procurava não bombardear com pedidos as primeiras pessoas que mostrassem boa vontade em ajudar-me. Não nos podemos esquecer que aquelas pessoas não nos conhecem e estão ali, dispostas a dar-nos um pouco do seu tempo e por vezes podem sentir-se incomodadas ao sentir grande parte dele tomado de assalto por alguém que eles sequer conhecem. Isto torna-se pior quando esse alguém se mostra dependente e abusivo. O que não significa que não devamos pedir ajuda aos colegas e acreditar que conseguiremos bons amigos entre eles, o que não invalida fazermos por nós próprios aquilo que podemos e procurar ter um leque o quanto mais variado possível de pessoas que nos possam ajudar nas mais variadas tarefas. Assim conseguiremos uma forma mais equilibrada de conquistar os nossos amigos e uma forma menos falível de termos os apoios que precisamos.
    Algo para o qual inicialmente eu não estava sensibilizada eram as abordagens que algum pessoal docente tinha em relação às formas de contornar a minha deficiência. Nestes casos explicava como seria a melhor forma, a menos complicada, a mais parecida com a forma dos restantes colegas efetuarem as suas unidades curriculares. Também encontrei professores que julgavam que eu tinha em meu poder tudo que precisava para executar as UCs e que deles não dependia mais nada, os quais obviamente tive de esclarecer sem intermédios, sempre que possível, porque a sociedade apesar de saber que existem organismos que nos representam se for preciso, tem de se habituar que nós mesmos podemos resolver aquilo que é do nosso próprio interesse, inclusive nós, pessoas com deficiências.
    De entre todas, contristou-me um pouco conhecer a realidade que me foi explanada por docentes, muitos dos quais não eram nem meus nem sequer da Escola de Psicologia, que tiveram alunos com deficiência que lhes passaram uma visão desta e deles próprios, um pouco mais limitativa. Isto pode trazer algumas pseudo-beneces à partida, para os próprios, os que optam por se vitimizar, mas como podemos depois condenar quem apresenta uma visão de certa forma reticente quanto à eficiência destes no mundo do trabalho? E pior que isso, como é sabido, numa sociedade que generaliza tanto a respeito das pessoas com deficiência, até que ponto quem tem este tipo de atitudes não está a fechar portas a quem com muito trabalho e perseverança vem a seguir a eles? Não será esta atitude ou a falta dela uma responsabilidade que nos compete a todos?
    Dez anos passados, após ter frequentado a Universidade, até ao terceiro ano, ter desistido embora por razões completamente alheias a ela, ter feito outras coisas durante quatro anos e ter depois regressado já após a implantação do processo de Bolonha preparo-me para uma nova fase neste ano letivo: o meu estágio em psicologia escolar e da educação e a minha tese de mestrado.
Hoje olho o dia em que cheguei a Braga sem conhecer absolutamente nada e agradeço aos meus pais por terem respeitado e acreditado na minha decisão suportando medos, preocupações e até críticas daqueles que não entendem o quanto é crucial não cortar os sonhos dos filhos, mesmo que e isto inclua o machado da deficiência. Agradeço àqueles que acreditaram que eu iria perseverar no meu intento e mesmo àqueles que julgavam que não, pois foram alturas críticas a alavanca da minha perseverança. Agradeço a todos os anónimos que com as pequenas coisas que fizeram por mim fizeram muitas vezes a diferença.
    Agradeço àqueles muito especiais de alma franca e fraterna que me deram o privilégio de lhes chamar amigos.
E agradeço especialmente ao ser maior que sempre me ampara nesta caminhada de tantos contrastes tornando a cada dia este sonho possível!
Resta-me agora desejar-vos a vós, que pela primeira vez percorrem estes caminhos, toda a sorte e todo o sucesso, esperando que nestas linhas encontrem um pouco do sentido da perseverança e todos os bons sentimentos que estas linhas vos puderem inspirar.


Verónica Baptista
 
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